quinta-feira, 27 de maio de 2010

Confissões noturnas - Parte 04 (Final)


A voz de Kelly estava mais tensa do que o normal.

- Preciso que você venha ao hospital. - disse ela. - Agora.

Anna vestiu-se mais rápido do que houvera vestido-se em toda a sua vida. Em meia hora estava no hospital o qual  Kelly a chamara. Por mais que andasse rápido, sentia como se estivesse em câmera lenta. Era o mesmo hospital em que ela esteve internada quando tentou suicídio. Novamente podia ouvir todo aquele barulho de máquinas e passos. Quase a ensurdecia. Pediu informação à recepcionista sobre Kelly, e a moça pediu que ela fosse ao quarto 503. Não disse o porquê, mas seu jeito consternado intrigou Anna.

Pôs sua mão sobre a maçaneta e entrou no quarto. Vira uma cena que nunca passou por sua cabeça. Seth estava dormindo, com fios de plástico ligado à seus antebraços. Kelly, que levantou-se de uma poltrona ao vê-la,  chorou em seus braços. Anna afagou-lhe, ainda em choque. Talvez ele tivesse ficado doente. Não era nada grave. Não podia ser nada grave. Ela passou as mãos no rosto de Kelly e enxugou-lhe as lágrimas. E então Seth acordou.

Ele contou-lhe que era portador de hemofilia, uma doença sanguínea gravíssima. E que não teria muito tempo de vida. Dali em diante, ele teria de viver respirando por aparelhos. Anna não chorou. Ainda permanecia em estado de choque com tudo que ouvira. Seth era a última pessoa que ela imaginava que estivesse doente. Seu melhor amigo. A única pessoa que já a entendera nesse enorme mundo. Ele contou-lhe que decidiu que desligariam seus aparelhos no dia seguinte. Seu chão fora roubado. O mundo estava caindo sobre ela, de novo. Anna levantou-se e deitou na cama do hospital, com Seth. Passou seu braço pelo quadril dele e ficaram assim, por três horas. Nada mais precisava ser dito.

Anna não voltou ao hospital, no dia posterior. Queria guardar a imagem que sempre tivera dele. E então, chorou. Chorou durante seis horas, depois dormiu um dia inteiro. Soube então que Seth já tinha sido enterrado. E surpreendentemente, sorriu. Ele foi um anjo que veio para salvar a sua vida. Seth a salvara de todas as formas que uma pessoa poderia ter sido salva. Ele a salvou dela mesma. Anna aprendera com Seth, em menos de um mês, o que ninguém a ensinara durante toda a sua vida. Não se trata tristeza com palavras duras ou repreensão. Apenas é preciso mostrar como é o céu que não se quer mais voltar ao inferno. 

Um dia antes do Ano Novo, Anna recebeu uma carta. Era de Seth.

"Anna,
Se você receber essa carta, eu já parti. Só quero que saiba que você foi uma das melhores coisas que me acontecera nos últimos tempos. Quando eu a levei para o hospital, me perguntei porque uma pessoa tão cheia de vida iria querer maltratar-se assim. Eu te mostrei a beleza da vida, e espero que você continue de onde nós paramos. Me desculpe por não ter contado antes sobre minha doença. Você para sempre será a melhor amiga que Deus já me dera na vida! Algum dia, quando for sua hora certa, nós vamos nos reencontrar. Até lá, eu quero que você seja bastante feliz. Volte a trabalhar, saia mais com seus amigos e encontre um namorado. Tantas pessoas gostariam de estar no seu lugar, Anna. Só você pode decidir o que fazer com a sua vida, daqui para frente. Eu espero que você continue seguindo em frente, sempre em busca da felicidade. Sei que você não acredita em Deus, mas isso não importa. O que importa é que Deus acredita em você. E eu também. Eu a amo, do fundo do meu coração. Obrigado por ter salvado o que restava de minha vida. Eu sempre estarei com você. Cuide de Kelly, por favor. Até algum dia."

Anna desabou em lágrimas. Mas fora a última vez. Anna fez o que Seth pedira. Por ele, por ela mesma. Anna passou a cuidar de Kelly, depois de conseguir sua guarda judicialmente. Saía para festa com os amigos, voltara a estudar e trabalhava como sempre fosse o seu primeiro dia. Anna era feliz, pela primeira vez na sua vida. Aquela era a época de sua vida chamada FELICIDADE. Todas as semanas, Anna e Kelly levavam flores para o túmulo de Seth. Passavam horas contando para ele tudo sobre suas vidas. Três anos após a morte de Seth, Anna casou-se com um rapaz chamado Daniel. Dois anos mais tarde, tiveram um filho. Anna o batizou de Seth. Ele sempre esteve com ela. Sempre estará. Porque as pessoas que amamos, vivem para sempre conosco. A vida é bonita, e precisa ser vivida. Nunca sabemos quando ela pode acabar. Só mantenha a felicidade.

12 comentários:

  1. Amei demais! Quase chorei aqui. Devias fazer mais histórias como essa, porque você escreve muito bem. Beijos

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  2. Profundo e reflexivo.
    Senti muita coisa enquanto lia. E gosto disso.

    Aaah! Palavras...

    Beeejo pra vc. :)

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  3. vim dizer exatamente o que eliza já disse. Muito boa a história!
    beijo.

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  4. quero um seth em minha vida '-'

    sim, o final ficou lindo-perfeito,parabéns.! (:

    beijas jaci :*

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  5. Simplesmente adorei *.*
    Foi triste ele ter partido, mas deixou uma lição enorme para trás, algumas pessoas passam em nossa vida para nos salvar, e as vezes sem saber acabamos salvando a vida de alguém tbm. Muito lindo. Vc tá de parabéns e quero mais histórias assim, rsrs.

    Bjs...

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  6. Putz, 'perdi' as outras partes. Vou ter que ler os outros posts. rs

    Tem selinho para vc no meu blog. :)

    =*

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  7. Belo blg! Tem ótimos textos, se puder, acesse o meu: www.marcelovinicius.com

    Abraço!

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  8. Oh, God, que lindo!
    Adorei, de verdade! *---------*
    Beijos, linda!

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  9. Adorei aqui...
    estou seguindo

    beiijo *.*

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  10. Preciso ler ainda as outras partes dessa história. Achei interessante!
    Tem selo pra você no meu blog. bjs

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  11. Eu adorei a short story. Você escreve muiiito bem *---*

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